A Arte de Escutar a Deus

Muitas das notáveis orações da Bíblia consistiram mais em ouvir do que falar. Em ouvir a voz de Deus. Quando, por exemplo, Deus falou a Samuel, e ele respondeu “Fala, porque o Teu servo ouve” (I Sam. 3:10). E Deus, então, deu ao jovem Samuel Sua mensagem. Ou quando Isaías viu ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e o seu séqüito enchendo o templo, e os serafins, com as asas cobrindo o rosto, clamando: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da Sua glória” (Isa. 6:3). Só então é que Isaías proferiu as palavras de sua oração: “Ai de mim, que vou perecendo porque eu sou um homem de lábios impuros, e habito no meio dum povo de impuros lábios...” (Isa. 6:5). E então o profeta continuou a ouvir: “Depois disto ouvi a voz do Senhor que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim” (Isa. 6:8). E Deus transmitiu ao profeta a incumbência divina.

Com Maria, a experiência foi semelhante. Deus mandou o anjo Gabriel transmitir a Maria as novas do nascimento de Jesus, e comunicar-lhe que ela seria a mãe do Salvador. Só depois de ouvir com atenção as palavras do anjo, foi que Maria falou: “Eis aqui a serva do Senhor: cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Luc. 1:38). E a história da conversão de Paulo também apresenta a mesma verdade: Deus falando primeiro. “E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4). E aí, então, Paulo respondeu a Jesus, perguntando: “Senhor, que queres que eu faça?” E desse momento em diante, toda a vida do apóstolo mudou. Mas notem: o ponto alto que levou Saulo à conversão, foi a voz de Deus falando a ele. E ele, respondendo.

Apresentamos esses exemplos bíblicos para frisar a necessidade de procurar ouvir mais a Deus, em nossa hora de oração, e não só falar, falar. Porque na realidade Deus já sabe tudo de nós e sobre nós, e nós é que temos necessidade de saber mais a respeito dEle, e de Sua vontade para conosco. Embora, na oração, o falar também seja importante. Pois o Pai sempre aprecia ouvir a voz do filho. Mas na hora da oração, da meditação, da contemplação, deve haver mais tempo de silêncio, de nos tornarmos receptivos à Sua voz, ao que Ele nos tem a dizer. A leitura meditada da Palavra de Deus, na hora de comunhão, é também uma maneira de ouvir a Deus. A reflexão sobre a vida de Jesus, Seus ensinamentos, Sua morte e ressurreição, abre a nossa mente e o nosso coração para ouvir a voz celestial. Aquela voz mansa e delicada, como ouviu Elias no dia de seu desânimo, na solidão da caverna. É por isso que Ellen White aconselha: “Far-nos-ia bem passar diariamente uma hora a refletir sobre a vida de Jesus. Deveremos tomá-la ponto por ponto, e deixar que a imaginação se apodere de cada cena, especialmente as finais. Ao meditar assim em Seu grande sacrifício por nós, nossa confiança nEle será mais constante, nosso amor vivificado e seremos mais profundamente imbuídos de Seu espírito” – O Desejado de Todas as Nações, pág. 83.

Mas hoje, em que consistem nossas orações, costumeiramente? Em falar. E nada em ouvir. Fazemos às pressas nossas orações, premidos pelo tempo, e quase nunca paramos para ouvir a resposta de Deus. Nossa oração, assim, torna-se formal, um monólogo apenas. Por essa razão é que na hora da comunhão com Deus deve haver tempo suficiente não só para falarmos, mas para a meditação e a contemplação, práticas que nos predispõem a ouvir a Deus no silêncio de nossa consciência.
A Bíblia nos afirma que Deus tem muitas maneiras de falar a Seus filhos (Heb. 1:1), mas em qualquer delas, precisamos estar disponíveis. Saber escutar.

 
 
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