Procura-se Um Deserto

É preciso que se estude um dia o papel do deserto na vida do homem. Ou, ao menos, na vida de certos homens. Para muitos cristãos de épocas passadas, quando se cultivava mais a vida interior, o deserto era uma verdadeira obsessão. Achavam impossível viver longe dele. Alguns fizeram dele o seu lar.

Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, compreendeu melhor a terra dos homens depois que seu avião, com pane no motor, se viu obrigado a passar dias e dias no Saara, completamente isolado de tudo. A lembrança desse silêncio fê-lo um dia escrever: “Eu sempre amei o deserto. A gente se assenta em uma duna de areia. Não vê nada. Não escuta nada. E, no entanto, no silêncio, algo grandioso irradia”.

Claro que ninguém ama o deserto por ele mesmo. Escreveu Saint-Exupéry: “O que torna belo o deserto é que ele esconde uma fonte em algum lugar”.

E nós podemos criar um deserto em torno de nós e, principalmente, dentro de nós. Ali, isolados, aprenderemos a dar à nossa vida, às pessoas que nos cercam, o devido valor. Aliás, nunca poderemos compreender devidamente essas realidades se não nos encerrarmos em nós mesmos. O deserto é feito de silêncio. Não de um silêncio estéril, marcado apenas pela ausência de barulho. Mas de um silêncio que nasce dentro de nós mesmos. Um silêncio feito de reflexão e exame interior. Um silêncio feito de amor.

É necessário fazermos constantemente parada em nossa vida. Parada para meditação, para oração, para contemplação. Como se fosse um oásis. Sairemos dali refeitos, enriquecidos, animados. Muito mais dispostos a enfrentar a vida com coragem e determinação. No mundo em que vivemos hoje, com excesso de agitação, com correria constante, as atividades nos absorvem, os homens nos solicitam, nossas responsabilidades se multiplicam. Por isso mesmo, mais do que em outros tempos, precisamos de “desertos” em nossa vida. O deserto, no sentido espiritual (e muitas vezes o deserto espiritual e o deserto físico se completam), longe de nos isolar, dá-nos condições de um encontro real, profundo e sincero com nós mesmos, com os outros e com Deus.

E Cristo nos deu o exemplo também nesse sentido; ao olharmos para Ele ficamos admirados com o lugar que deu ao “deserto” em Sua vida. Vida que não foi tranqüila. As multidões O procuravam, O solicitavam, exigiam Sua presença e Sua palavra. Ele atendia a todos, fazendo o bem a todos. E à noite, cansado, quantas vezes deixava os apóstolos repousando e se retirava para longe! Para um lugar solitário. Era o Seu deserto. E passava noites em oração. Hoje, mais do que nunca, seguir o exemplo de Jesus se torna mais necessário e urgente. E fiquem certos de que o “deserto” nos dará mais unidade, nos tornará mais amigos de nós mesmos, fará com que nos aproximemos mais e mais do projeto de Deus para nossa vida. Só quem já fez a “experiência do deserto” é capaz de valorizá-lo devidamente, e de lhe dedicar tempo, tempo que a eternidade compensará.

 
 
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