Ver a Deus

Por Tercio Sarli


Falando do grande homem de Deus que Moisés, a Bíblia diz que, pela fé, diante das vicissitudes e angústias pelas quais passou, ele permaneceu “firme como vendo o invisível” (Heb. 11:27). Notem a expressão: vendo o invisível! Ver a Deus, torná-lo cada vez mais real na vida, é fruto da comunhão, da meditação, da contemplação. Não é resultado de conhecimento teórico, mas de vivência com Ele, o Criador e Mantenedor do Universo. Foi assim com Moisés. No começo, um jovem afoito, bem-intencionado mas precipitado e autoconfiante. Na realidade sua grande experiência de fé e de familiariadade com Deus foi no deserto, durante os quarenta anos que passou em meio à Natureza, numa vida silenciosa e contemplativa, aprendendo com as ovelhas a confiar em seu grande Pastor. E foi tão profunda essa amizade entre Deus e Moisés, que a Bíblia assim a descreve: “Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Exô.33:11).

Em nossa pequena talvez não esperemos tanto, mas por que não desenvolvermos dia a dia, calmamente, perseverantemente, essa capacidade de ver Deus, de senti-Lo através de Suas obras criadas, no colorido das flores, no canto dos passarinhos, no esplendor de um pôr-do-sol ? E isso é possível gastando tempo com Ele, em oração, em comunhão, em contemplação, no silêncio, na solidão, abrindo-lhe o coração e a alma. Por que não? Deus nos criou assim, com essa capacidade, com essa possibilidade. A nós cabe desenvolvê-la mais e mais. Um escritor cristão escreveu que a espiritualidade de um homem mede pela sua comunhão com Deus.

Certa vez um menino ouviu alguns homens falando acerca de Deus. Quando chegou em casa, perguntou ao pai se alguém podia ver a Deus. O pai respondeu um tanto rudemente: “Não.” Isto entristeceu o menino. Mais tarde ele saiu a uma caminhada na mata.

Assentou-se junto a um córrego e meditou. Viu os pássaros fazendo seus ninhos. Ergueu os olhos para o céu através dos ramos das árvores, ancioso de ver a Deus.

Um dia, o pastor da igreja jantou em sua casa, e o menino teve ocasião de perguntar-lhe se alguém podia ver a Deus. O ministro procurou explicar-lhe que ninguém poderia ver a Deus e viver. Esta foi para o menino uma revelação esmagadora. Ele saiu para o celeiro e chorou.

Logo depois disto, encontrou-se com um velho pescador. Tornou-se um grande amigo dele. O pai soube do novo amigo e perguntou ao menino a seu respeito.

-Ele é um bom homem- disse o menino.- Eu gosto dele. Ele não fala muito, mas vou dizer-lhe como procede. Na tarde passada, quando estávamos navegando rio abaixo e o sol se punha através das árvores entre lindas nuvens, eu vi lágrimas em seus olhos, e...

-Está bem, está bem- disse o pai. Creio que você está em boa companhia.

Na tarde seguinte, terminada a pescaria, o menino notou de novo que o velho pescador tinha os olhos úmidos ao observar o pôr-do-sol. O pequeno tocou timidamente o braço do velho. Este nem voltou a cabeça.

-Eu nunca faria a qualquer outra pessoa a pergunta que vou fazer ao senhor- disse o menino, com lábios trêmulos.

O pescador ainda não se moveu. Tinha os olhos fitos no sol poente.

O senhor pode ver a Deus? – aventurou o menino.

Ainda não houve resposta. O menino então puxou o velho pela camisa, e insistiu: -Por favor, diga-me! Pode-se ver a Deus?

- O menino esperou, sem respirar. Afinal, o velho volveu um amável rosto manchado de lágrimas para o garoto e disse:

-Filho, não vejo outra coisa se não a Ele!

Há um belo hino que bem expressa esse divino sentimento nas seguintes palavras:


Vejo a Deus na delicada flor,
Vejo a Deus na ave multicor,
Vejo a Deus no orvalho lá do céu,
No arrebol, com seus rosados véus.

Vejo a Deus num belo entardecer,
No sorrir da criança em seu prazer,
Sim no vôo da ave pelo ar.
Vejo a Deus em tudo palpitar.

Procure você também desenvolver em sua vida essa sublime capacidade de ver a Deus.

 
 
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